domingo, 8 de julho de 2012

48 crash

Nos anos da juventude venera-se ou despreza-se ainda sem aquela arte da nuance que é o melhor partido da vida e paga-se, muito caro o ter assaltado deste modo as coisas e as pessoas com SIM e NÃO. Tudo se predispõe de modo que o pior de todos os gostos, o gosto do absoluto, seja cruelmente achincalhado e abusado, até que o homem aprenda a pôr um pouco de arte nos seus sentimentos... (...)A tendência para a cólera e o instinto da veneração, próprios da juventude, parecem não descansar enquanto não tiverem falseado homens e coisas, para os poder dominar: - a juventude, já de si, é algo que engana e falseia. 

Mais tarde, quando a alma jovem, martirizada por mil desilusões, se volta por fim, desconfiada, contra si mesma, ardente e selvagem ainda, mesmo nas suas suspeitas e remorsos: como se encoleriza consigo mesmo, como se dilacera com impaciência, como se vinga da sua longa cegueira, como se ela tivesse sido voluntária! 
Neste período de transição autocastiga-se pela desconfiança para com os seus próprios sentimentos; martiriza-se o entusiasmo pela dúvida; a consciência limpa até aparece já como um perigo, como uma espécie de auto-encobrimento e fadiga da honestidade mais subtil; e sobretudo toma-se partido por princípio contra «a juventude». - 
Dez anos mais tarde: e percebe-se que também isso tudo era ainda - juventude!

Nietzsche

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