quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Demasiado Humano



Consultei os filósofos, folheei os seus livros, examinei as suas diversas opiniões; achei-os todos orgulhosos, afirmativos, dog­máticos - mesmo no seu pretenso cepticismo -, não ignorando nada, não demonstrando nada, troçando uns dos outros; e esse ponto, que é comum a todos eles, pareceu-me ser o único em que todos concordavam. Triunfantes quando atacam, não têm vigor quando se defendem. Se examinais as suas razões, só as têm pa­ra destruir; se contais os seus caminhos, cada um está limitado ao seu; só se põem de acordo para discutir; prestar-lhes ouvidos não era o meio de me livrar da minha incerteza. Compreendi que a insuficiência do espírito humano é a pri­meira causa dessa prodigiosa diversidade de sentimentos, e que o orgulho é a segunda.
Nós não temos a medida dessa imensa máqui­na, não podemos calcular as suas proporções; não lhe conhecemos nem as primeiras leis nem a causa final; ignoramo-nos a nós mes­mos; não conhecemos nem a nossa natureza nem o nosso princípio ativo; mal sabemos se o homem é um ser simples ou composto: mistérios impenetráveis rodeiam-nos por todos os lados; pairam por cima da região sensível; para os compreendermos, supomos ter inteligência, e apenas temos imaginação. Cada um de­les sabe muito bem que o seu sistema não tem mais fundamentos que os dos outros; mas sustenta-o, porque é seu. Não houve um único que, tendo chegado a distinguir o verdadeiro e o falso, não ti­vesse preferido a mentira que encontrou à verdade descoberta por um outro.


Rousseau- in 'Emílio'
Bonjour!



terça-feira, 28 de agosto de 2012

O multiculturalismo de Yinka Shonibare


Yinka Shonibare  MBE ( The Most excellent Order of the British Empire ).Born February 10,1962) is a British-Nigerian  conceptual artist. Yinka Shonibare is a senior figure in the British art world but one who intentionally eludes easy categorization. He calls himself a "postcolonial hybrid."












Um africano que nasceu em Londres. Assim é Yinka, nascido no Reino Unido (1962) e criado na Nigéria, sua arte explora temas sobre raça, identidade, história e alienação através de uma estética complexa e rica em simbolismos. Um exemplo disso, é o estilo vitoriano inglês e o tecido 'dito' africano, multicolorido e multiestampado, com padronagens típicas. Porém, esses códigos aparentemente decorativos são uma porta de entrada para uma leitura mais aprofundada do mundo pós-colonial. O tal tecido africano que ele usa é uma imitação do batik indonésio, criada na Holanda- século 19 - e fabricada na Inglaterra para ser vendida na Indonésia (colônia holandesa na época). Quando viram que não encontravam consumidores lá, por conta da altíssima qualidade do batik local tradicional, o tecido foi vendido a preço de banana na África ocidental. Até hoje esse tipo de tecido é fabricado largamente na Europa e usado intensamente por essa parte da África, até que virou um símbolo de africanidade, quando na realidade é fruto do colonialismo europeu. 



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Photomaton


O extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade, que a significação a extrair deles, ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos, com a devida atenção à sutileza e a um certo rigor que pertence à imaginação de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete do pequeno movimentador de correntes de ar. 

Herberto Helder

Bonjour!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Orbitale












As composições fotográficas de Cláudia Rogge (Dusseldorf-Alemanha), impressionam pois captam uma série de corpos harmoniosos que se unem formando composições dramáticas como as pinturas de grandes mestres.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

O último dia do tempo



O último dia do ano não é o último dia do tempo. Outros dias virão e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida. Beijarás bocas, rasgarás papéis, farás viagens e tantas celebrações de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral, que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor, os irreparáveis uivos do lobo, na solidão. O último dia do tempo não é o último dia de tudo. Fica sempre uma franja de vida onde se sentam dois homens. Um homem e seu contrário, uma mulher e seu pé, um corpo e sua memória, um olhar e seu brilho, uma voz e seu eco, e quem sabe até Deus… Recebe com simplicidade este presente do acaso. Merecestes viver mais um ano. Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos. Teu pai morreu, teu avô também. Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras expreitam a morte, mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo, e de copo na mão esperas amanhecer. O recurso de se embriagar. O recurso da dança e do grito, o recurso da bola colorida, o recurso de Kant e da poesia, todos eles… 


Carlos Drummond de Andrade

Bonjour!

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Etiqueta de Cavalaria

Os seres não cessam de mudar de lugar em relação a nós. Na marcha insensível porém eterna do mundo, nós consideramo-los como imóveis num instante de visão, demasiado breve para que seja percebido o movimento que os arrasta. 
Mas basta escolher na nossa memória duas imagens suas, tomadas em instantes diferentes, bastante próximos para que eles não tenham mudado em si mesmo, e a diferença das duas imagens mede a deslocação que eles operavam em relação a nós. 
Ninguém deve encorajar nem incitar outra pessoa a ir ver como ele é. Já existe excessiva informação no mundo acerca da cultura. Devemos partir sós para esse continente. Descobri-lo sozinhos. Assim como as pessoas. Uma pessoa não está nítida e imóvel diante dos nossos olhos, com as suas qualidades, os seus defeitos, seus projetos, suas intenções para conosco - como um jardim que contemplamos, com todos os seus canteiros, através de um gradil. 

Bonjour!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O Cinismo dos Valores

Todo esforço, qualquer que seja o fim para que tenda, sofre, ao manifestar-se, os desvios que a vida lhe impõe; torna-se outro esforço, serve outros fins, consuma por vezes o mesmo contrário do que pretendera realizar. Se quero empregar meus esforços para conseguir uma fortuna, poderei de certo modo consegui-la; o fim é baixo, como todos os fins quantitativos, pessoais ou não, e é atingível e verificável. Mas como hei-de efetuar o intento de servir minha pátria, alargar a cultura humana, ou melhorar a humanidade? Nem posso ter a certeza dos processos nem a verificação dos fins. 

Ah! mas a humanidade acaba por encontrar o seu verdadeiro caminho — dizem-me duas células ingénuas do entendimento. Num mundo que almoça valores, janta valores, ceia valores, e os degrada cinicamente, sem qualquer estremecimento da consciência? Não, o homem não tem caminhos ideais e caminhos de ocasião. O homem tem os caminhos que anda. Peçam-me tudo, menos que tape os olhos, bem basta quando a terra nos cobrir!
Fernando Pessoa - Miguel Torga

Obrigada pelos 63.000 mergulhos!!!

Bonjour ilhados!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Bow Wow Wow

Na terra, tudo vive num fluxo contínuo que não permite que coisa alguma assuma uma forma constante. Tudo muda à nossa volta. Nós próprios também mudamos e ninguém pode estar certo de amar amanhã aquilo que hoje ama. É por isso que todos os nossos projetos de felicidade nesta vida são quimeras. Aproveitemos a alegria de espírito enquanto a possuímos. Vi poucos homens felizes, mas vi muitas vezes corações contentes e de todos os objetos que me impressionaram foi esse o que mais me satisfez. 
Bonjour.

sábado, 11 de agosto de 2012

A palavra acorrentada

Quanto menor for a exuberância da frase, maior será a intensidade do golpe. O escritor duplica e triplica o seu estilo, quando um senhor impõe silêncio ao povo. Sirva de exemplo a concisão de Tácito no exprimir e sua veemência no pensar. A honestidade de um coração, condensada em justiça e verdade, fulmina. Evite dar gênio ao medíocre. O Tempo é um artista.

Bonjour!

Os Miseráveis -Victor Hugo


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Princes and Princesses


O mal que algumas palavras têm não é o que significam diretamente. O mal são as conotações. Tenho a impressão de que as palavras atrapalham muito. Tudo quanto estamos por aqui a dizer é um produto dos poderes ou capacidades do cérebro: a linguagem, o vocabulário mais ou menos extenso, mais ou menos rico, mais ou menos expressivo, as crenças, os amores, os ódios, Deus e o diabo, tudo está dentro da nossa cabeça. Fora da nossa cabeça não há nada. Acho que damos pouca atenção àquilo que efetivamente decide tudo na nossa vida, ao órgão que levamos dentro da cabeça: o cérebro. 





O conhecimento une cada um consigo mesmo 
e todos com todos. 
Não tenho a obrigação de amar toda a gente, mas sim de a respeitar.

Saramago

Bonsoir!

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Mais árido que o deserto


Nós em teoria compreendemos as pessoas, mas na prática não as suportamos, pensei, na maior parte das vezes só a contragosto lidamos com elas, e tratamo-las sempre de acordo com o nosso próprio ponto de vista. Não deveríamos no entanto considerar e tratar as pessoas apenas segundo o nosso ponto de vista, mas sim considerá-las e tratá-las segundo todos os pontos de vista, pensei, lidar com elas de uma maneira que pudéssemos dizer que lidámos com elas sem o mínimo preconceito, mas isso não é bem possível porque, na realidade, alimentamos sempre preconceitos para com toda a gente. 

Thomas Bernhard, in 'O Náufrago'


É defeito nosso antes encararmos de má vontade o que se acha à nossa frente, 
que de bom grado o que se acha atrás. 

Bonjour!

Montaigne

sábado, 4 de agosto de 2012

A faca não corta o fogo



Ama-se um corpo como instrumento de amar, como forma de onanismo de que o trabalho é dele. Ou como êxtase de um terror paralítico. Ou como orientação ao impossível que não está lá. Com raiva e desespero de quem já não pode mais e não sabe o quê. Como avidez insuportável não de o ter tido na mão, porque o podemos ter nela, sofregamente, boca seios o volume quente harmonioso da anca, e tudo esmagar até à fúria, ter o que aí se procura e que é o que lá está, mas não o que está 'atrás disso' e é justamente o que se procura e, se não sabe o que é, jamais poderemos atingir. 

Vergílio Ferreira - Em Nome da Terra

Bonjour!


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